EU, O MENINO E O CÃO

            Ele seguia pela calçada, segurando o cãozinho no colo. Segurando não era bem o termo, e, sim, abraçando. Um abraço de aconchego, de “não entrego”, de “ele é meu”. Porém, sua missão era entregar o cãozinho a alguém e partir de volta para casa. Na última das hipóteses, se não achasse um dono para o cão, abandoná-lo à sorte e isso seria a morte para o menino.
            O cão ele encontrara na rua, sem eira nem beira. Afeiçoara-se imediatamente a ele. Aquele amor à primeira vista em que os cinco minutos de encontro já representavam uma vida inteira.
            O cãozinho, por sua vez, abandonado ou perdido – quem há de saber? – também identificou o menino como seu dono. Dono não, parceiro de brincadeiras, de trocas de afetos, de cumplicidades. Porém, a mãe fora enfática: “já temos um cão e aqui não cabe dois. Você tem meia hora para se ver livre dele”.
            Imediatamente, o garoto fixa o seu olhar no cãozinho e é capaz de apostar que o pobrezinho entendeu direitinho a frase da mãe: não teria guarita naquela casa. O menino suplica com as lágrimas e aquele olhar pidão dos desesperados à espera de um milagre, pequeno que fosse.
            A mãe, talvez para não se abalar, continua seus afazeres, de costas para a cena, sob a insistente palavra negativa, jogando por terra a esperança do garoto.
            Então, ele busca a coleira novinha, que certa vez comprara para os passeios com o outro cão e ainda não a usara, e circula sobre o pescoço do cãozinho, talvez, para que ele se sinta mais protegido e acredite que, com ela, selava-se a conquista de um novo lar.
            Silenciosamente, o garoto coloca o cãozinho no colo e ganha as ruas do bairro, enquanto a corda da coleira vai roçando o chão, no embalo da caminhada, na identificação que nem existiu, na exigência de entregar o que era tão seu…
            E, então, nos cruzamos na calçada. Quase que escondendo o cão no seu ombro, olha para mim e oferece-o. Não convencida da oferta contra o enorme carinho dedicado ao cachorro, pergunto-lhe o que dissera. E ele, no embate do olhar doloroso da entrega e ao mesmo tempo suplicante para que eu o aceite, me oferece o cão enquanto o aperta em seus braços.
            Para o seu desespero e alívio, eu recuso a oferta. Estou hospedada aqui perto e não moro nesta cidade.
            O cão volta a cabeça para mim ao ouvir a minha voz e parecendo sorrir com a língua de fora e o olhar agradecido por não lhe oferecer o meu colo, segue firme no colo do garoto que parece apertá-lo mais ainda contra o peito.
            Olho ainda uma vez para trás e vejo o garoto seguindo a rua à procura de alguém que abrigue o cãozinho.
            Meia hora depois retorno à rua do encontro e vejo-os do outro lado. Vou seguindo ao encontro deles, ao mesmo tempo em que ele para a minha frente, e, com os olhos embaçados e a voz entrecortada me diz que não encontrou ninguém para ficar com o cãozinho. E é neste momento que me conta a história do encontro com o cão, da recusa da mãe, da coleira, da necessidade da entrega, de ter de romper o laço…
            Olho a coleira vermelha em volta do pescoço do cãozinho. Um nó na garganta ao mirar o cachorro e o menino. De quem sinto mais pena? Do sofrimento do garoto por de ter de perder o seu amiguinho ou do olhar suplicante do cãozinho, pedindo para ficar?
            Sem uma boa solução, sugiro ao menino que bata nas casas que têm cachorro. Quem sabe?
            O sol já começava a se pôr, aumentando a agonia do garoto. Teria de voltar sem o cachorrinho, e, se entregá-lo já o corroia por dentro, abandoná-lo, então, seria mais que um martírio.
            Indefesa e engasgada, não consegui desejar-lhe “boa-sorte”, dando-lhe as costas, enquanto ele seguia a rua com o cãozinho no ombro e a corda da coleira vermelha se arrastando, num constante pedido de socorro…
Fátima Soares Rodrigues

93 thoughts on “EU, O MENINO E O CÃO

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