O Direito de Esquecer

            Perpétuo Socorro, 87 anos de lucidez e esperança em dias melhores. Professora, na juventude, trazia um olhar sisudo e um semblante sério, talvez, também, pelo descaso salarial que já era tratada a profissão de mestra. Aposentou-se e, na maturidade, resolveu volver o olhar para o mundo, as pessoas. Então, sua face se iluminou e passou a irradiar alegria, brincando diariamente com a vida.
            Nos inúmeros cadernos de folhas amareladas, o registro fiel em prosa e verso de tudo que tem vivido.
        Era uma tarde de sexta-feira, na região central de Belo Horizonte, agora, tão habitada por trombadinhas, que ela, a mando dos netos, ganhou as ruas, munida apenas de R$ 5,00 para comprar os pães para o lanche da tarde da família, rotina que cumpria há anos, e, que com o custo de vida, foi trocando as moedinhas pelo total de R$ 4,00, quantia necessária para abastecer o estômago da família.
         Ao deixar a portaria do edifício e caminhar um quarteirão, ela vê, repentinamente, desabar um temporal, quando, milagrosamente, avista o camelô vendendo sombrinhas. Agora, na velhice, vive de urgências, afinal, o futuro passou a ser cada dia que lhe é dado de presente para viver, e, assim, sem titubear, a urgência agora seria se proteger das fortes águas que poderiam levá-la à pneumonia, e, naquela idade, seria um pequeno passo para o seu eterno descanso.
           Defronte ao camelô, pergunta o preço da sombrinha. “Cinco reais”, responde ele. Com a nota já nas mãos, ela efetua a troca.
         Protegida das águas, dirige-se à padaria. No caixa, a funcionária lhe informa o valor: R$ 4,00. Ao vasculhar a bolsa, não encontra o dinheiro, então, vasculha a memória e, ao avistar a sombrinha, se lembra da compra.
        Num átimo, não desiste. Pede à funcionária para guardar o saco com os pães e ganha as ruas na direção do camelô.
            No caminho, o céu já aberto e o sol brilhando, afinal, é verão, enxuga a sombrinha com a roupa até secá-la por completo. Dispõe as barbatanas em fileiras, fecha delicadamente a sombrinha, envolvendo-a com a capa e, valendo-se da idade já avançada, dirige-se ao camelô:
            _ Moço, como o senhor está vendo eu já sou bem idosa e a memória então, anda mais velha do que eu… Imagine você que eu desci para comprar o pão para a minha família com o único dinheiro que tinha. Acontece que a chuva me pegou, e, você sabe, né, gente velha se pegar uma pneumonia não demora ir para o cemitério. Comprei a sombrinha de você, mas só depois que peguei os pães é que me lembrei que não podia. Assim, estou te devolvendo a sombrinha que continua novinha, oh, pode conferir, porque preciso pagar os pães.
            E o rapaz retruca:
            _ Ah, não, vovó, sinto muito. A senhora comprou, tá comprado. Não tem devolução, não.
            Ela abre a bolsa e encontra, lá no fundo, uma sombrinha toda destruída, e, sem vacilar, ofecere-a:
            _ Vamos fazer o seguinte: eu te dou também esta aqui, que você pode consertá-la e vendê-la também.
            _ Não, não e não. Não vou devolver o dinheiro e nem ficar com esta outra que é um caco de sombrinha.
            Perpétuo Socorro, sem socorro, deu a última cartada:
            _ Vamos fazer o seguinte, então: eu te vendo a sombrinha pelo preço dos pães: R$ 4,00, e você ainda sai lucrando R$ 1,00. Negoção, não acha?
            _ Sinto muito, vovó. Não aceito.
            Aí, Perpétuo Socorro fez valer o seu nome. Num choro incontido, fez chegar até ela as pessoas, e, ainda em pranto, explicou toda a situação.
            Um policial que por lá passava, dirigiu-se ao vendedor e, após repreendê-lo, desfez a compra, afinal, conforme suas palavras, o idoso está no direito de se esquecer.
            Meia hora depois de ter saído, Perpétuo Socorro, ao entrar no elevador, abraçando o saco com os pães, sorriu para a jovem que lá estava, enquanto argumentava:
            _ Sabia que ser idosa tem as suas vantagens?
            E, sem bem entender, a jovem lhe pergunta o por quê.
            _ Ah, respondeu ela, não se enfrenta filas, não se paga passagem em ônibus, e o mais importante: não se é levada a sério…
            Sendo assim, a jovem sorriu e, naturalmente, não a levou a sério.
Fátima Soares Rodrigues

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