Viraremos pó da mesma cor

Belo Horizonte, 20 de dezembro de 2017, às 20h20.

Estou dentro do move lotado, com destino à Pampulha. Não consegui atravessar a roleta e paro ao lado da cobradora que conversa com o passageiro sentado à minha frente. Estou em pé. Antes de chegar à Estação Lagoinha, ela pergunta quem vai pagar com dinheiro. Sou uma delas e já garanto a passagem, sob a argumentação aos passageiros que precisa esconder o dinheiro, pois o ônibus sofreu um assalto ontem ou antes de ontem ao parar nessa estação.

Nessa estação, dois rapazes estão aguardando a abertura das portas para entrar no ônibus. O primeiro, ao colocar apenas um pé, é surpreendido pela arrancada leve do ônibus, pelo motorista, e grita: “Ô, motorista, você tá louco? Ainda não entramos, o meu irmão está atrás de mim.” Para a minha surpresa, o motorista começa a gritar uma série de desaforos e palavrões aos dois rapazes, que negam serem vagabundos, marginais, etc., etc.

Não satisfeito, o motorista, dirigindo, continua a desafiá-los e faz contato com os seguranças da próxima estação para recolherem os marginais. O ônibus para na estação e eu atravesso rapidamente a roleta, ao mesmo tempo que digo: “se eles forem, vou com eles. É injusto. Os rapazes não fizeram nada. Não vou deixá-los sozinhos nessa.”

Uma moça e um rapaz saem do ônibus comigo. Quatro seguranças armados os esperam, mas, antes que coloquem as mãos nos rapazes, entro na frente e explico que são inocentes. O motorista está ao meu lado e diz que os rapazes o ofenderam e não diz que ele os ofendeu e nem que colocou os passageiros em risco, dirigindo berrando e provocando os rapazes, além de acrescentar, olhando para mim: “é sempre assim, o passageiro é contra o motorista”. Um dos seguranças pede silêncio e quer me ouvir.

Explico a ele que entendo o estresse do motorista, a insegurança que vive diariamente, o cansaço, mas isso não dá a ele o direito de se empoderar por ser o condutor do ônibus e ter guarita para se defender, ofendendo os rapazes da forma que estava fazendo, muito menos pedir que eles sejam conduzidos pela polícia.

Um dos rapazes dá a mão ao motorista e lhe pede desculpas. O motorista não lhe pede desculpas.

Voltamos ao ônibus.

Os dois passageiros que desceram comigo disseram que me acompanharam porque “unidos somos força”. E eu fiquei pensando: sim, somos, mas em meio a mais de quarenta pessoas que presenciaram a injustiça, apenas três (considerados brancos) evitaram que ela acontecesse.

Não somos um país preconceituoso?

Os dois rapazes são negros. O motorista também.

O “muito obrigado” dos rapazes, dirigidos a mim, até na hora de descerem em seu destino, me engasgou, me entalou. Obrigado de quê? Vocês não fizeram nada, sou tão humana quanto vocês, vamos virar pó do mesmo jeito e, indubitavelmente, pó da mesma cor…

 

4 thoughts on “Viraremos pó da mesma cor

  1. Mais um belo texto fruto de uma bela reflexão e o que é mais importante, de uma bela ação. Parabéns Fátima, vc sempre maravilhosaaa

  2. É minha querida, tempos difíceis de intolerância. Sejamos exemplo de gentileza e cortesia sempre…o bem é silencioso mas existe em atitudes assim! bjs

  3. Today, when folks lack time and energy to do exercise and due to machinery support,
    warning and repair off body is needed, so that each
    portion of our body works well. Other than this, proper
    baby medicines are used to conserve the health in the
    kids. According to Ayurveda the obese persons are more susceptible to the next
    diseases.

  4. Today, when individuals lack time and energy to do
    exercise and due to machinery support, warning and maintenance of
    body’s needed, in order that each portion of our own bodies works well.
    Parents should make certain that meals they are
    serving to their children are small interval and full of nutrient.
    Her chiropractor performed low amplitude, high velocity manipulation across the 3 spinal locations
    and almost 1.

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