Diga que estou sonhando, vá!

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Para na minha frente e me encara antes de me dizer: você vai me entregar o seu celular, mas não agora.

A voz imperiosa e o porte alto e forte são o suficiente para me intimidar, ainda que não me mostre nenhuma arma. Estamos na rua, não estou e não estava com o celular na mão, e há várias pessoas em volta, andando.

Trago apenas uma pequena bolsa, a tiracolo, confeccionada pelos índios pataxós. Dentro, a carteira de motorista, 20 reais, o celular em meio a notinhas de supermercado e um lápis preto de olho.

Segura no meu braço e vai me conduzindo até o canto de um muro. Durante o trajeto, conversa naturalmente comigo. Diz que tem um filho de seis anos e outro na barriga da esposa. O filho, Agostinho, tal qual o santo, é muito inteligente e espirituoso. Certa vez, pediu ao filho que dissesse “oi” para o irmãozinho dentro da barriga da mãe. Agostinho lhe disse que, se o irmãozinho respondesse de lá “oi”, fugiria assustado.

Esbocei um sorriso e ele continuou a me contar mais histórias familiares, e eu ficava conferindo as horas no relógio da Catedral em frente, enquanto pensava nos compromissos perdidos naquela tarde. À medida que as horas avançavam, comecei a torcer para que ele me roubasse logo e me despachasse para que eu não perdesse os dois últimos compromissos. Mas o folgado não tinha pressa. Resolveu, a troco de não sei o quê, desfiar o rosário da sua vida em meu ouvido. E falava, falava, enquanto as horas avançavam, o sol descia, a minha barriga roncava, a bexiga se contraía e o homem sem a mínima pressa. Não sei se pela fome, pelo apavoramento de perder todos os meus compromissos, pelo som concomitante do celular que tocava, tocava, e o homem me sinalizava para não atender, mas senti que entrei em transe. Não seria um pesadelo? Estaria eu vivendo realmente essa situação absurda? Não deveria eu perder a paciência e colocá-lo na parede de uma vez? Olhava para ele, via-o falar, mas sua voz foi sumindo, sumindo, e eu fui me transportando para o aconchego do meu lar. Não queria mais nada naquela hora. Apenas ficar rodeada pelas pessoas que amo. Às favas todos os meus compromissos! Eu que sempre fui uma pessoa organizada, mais que apressada, incapaz de adiar compromissos, ainda que “chovesse canivete”, de repente, fui me apaziguando, fui sentindo saudades de estar e falar com os que amo. Há quanto tempo eu não fazia isso? Tão apressada, tão ocupada eu andava, que não me restava tempo para isso… Agora, que eu estava nas mãos desse sujeito, comandando a minha vida sem me deixar dar um passo, sem saber o que vai ser de mim, comecei a entrar num estado de relaxamento tamanho, que eu não sabia se era excesso de desespero ou certo cansaço de tanto correr e pressentir que poderia ser em vão…

Não sei dizer quanto tempo se passou. Lembro-me de que a noite foi caindo, as pessoas diminuindo, a rua se esvaziando, eu me enrodilhando num canto, assentando sobre as minhas pernas, abraçando meu corpo faminto, sedento, friorento, e a voz do homem longe, agora bem longe.

Prestes a me entregar a um desmaio, ouço o homem bater três palmas, como se estivesse me despertando de um transe, e me dizer:

“Muito bem, meu bem! Pode ir agora!”

Não me pediu o celular, nem a bolsa, nem me roubou a vida. Tive vontade de correr, mas, por precaução, comecei a dar passos lentos.

Já, a certa distância dele, gritou: “Ei, consegui o que queria: roubar o seu tempo. Da próxima vez, cuide melhor dele, certo?”

 

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