No meio do muro, havia uma flor.

No final de novembro, vesperando o final de ano, a mudança de planos, observo que, no caminho da cozinha para a lavanderia, no muro rebocado de cimento chapiscado e pintado de branco, nasceu uma flor. Ou melhor, várias florezinhas amarelas. Folhas verdes e flores amarelas. Esperança e prosperidade?
Sem terra, com a água esporádica, contrariando a natureza da maioria das plantas… como?
Contrariando a natureza…
Neste final de ano, quero finalizar atos cotidianos, pensamentos repetitivos.
Eu, mulher, mãe, avó… quero contrariar essa normalidade. Doravante, sou errante. Permito-me devanear, ver o tempo passar, sem me preocupar com o almoço, a roupa lavada, a cozinha arrumada…
Não quero olhar para a despensa e dispenso o olhar que me dispensam.
Não quero escolher o que faço primeiro, honrando os ponteiros do relógio: recolher o lixo ou a roupa suja? Ir às compras ou catar o feijão? Para, no meio do dia, ao meio dia, estender a toalha na mesa, e à noite, estender-me estatelada no colchão…
Quero dizer não!
Não estou com vontade de fazer nada. Quero andar à toa, observar os pássaros sobrevoando a Lagoa, e, quando eu voltar, deitar na rede e ler todos os livros que eu puder. Não quero saber se é noite ou dia, cedo ou tarde e se a saudade queima ou arde…
Eu não tardo. Vou ocupar todos os lugares que deixei vazios pela minha ausência, e buscarei a minha pessoa nas pessoas de Pessoa. Ó, Fernando, como são ridículas as cartas de amor…
Se, no meio do muro, havia uma flor, que eu faça acontecer contrariando tudo!

14 thoughts on “No meio do muro, havia uma flor.

  1. Providencial nesses tempos e em fim de ano pensar em ser diferente. . Em ser mais.. com um texto tão belo e inspirador, melhor ainda!! Parabéns mamãe! !

  2. Quanta doçura e sutileza! Parabéns pela terna crônica, uma ode a alma! Engraçado, duas fases de vida absolutamente diferentes e, de certo modo, o mesmo anseio, apropriar-nos da essência de nosso ser. (Re)descobrir-, (auto)apaixonar-se e permitir-se ouvir e ousar livremente agir. ♡ Que Deus nos inspire coragem, fé, persistência e sabedoria

  3. Amiga Fátima:
    Obrigado pelos sentimentos que inspiraram o texto.
    Ver-se
    Descobrir-se
    Lembrar-se
    A nós faz um imenso bem!
    De repente, sentir a ternura que carrega a flor Amor Próprio e que renasce no nosso muro de doar-se, imensamente, aos nossos próximos, como vivemos nós…
    Abreijos bons de agradecimento e admiração.

  4. Amiga Fátima:
    Obrigado pelos sentimentos que inspiraram o texto.
    Ver-se
    Descobrir-se
    Lembrar-se
    A nós faz um imenso bem!
    De repente, sentir a ternura que carrega a flor Amor Próprio e que renasce no nosso muro de doar-se, imensamente, aos nossos próximos, como vivemos nós…
    Abreijos bons de agradecimento e admiração.

  5. Simplesmente assim…ser, sómente ser!
    Parabéns por mais esse momento descrito com tanta coerência e simplicidade!

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